Softwares desenvolvidos na UFV contribuem para sucesso na produção de carne bovina no Brasil

10 de julho de 2014


por Léa Medeiros

Quem visita o laboratório de Nutrição Animal da Universidade Federal de Viçosa vai encontrar uma porção de bois pastando calmamente em cochos parecidos com o de qualquer fazenda por ai. Mas não são! Cada vez que um boi vai se alimentar, um sistema informatizado identifica o quanto comeu e quantas vezes foi ao cocho durante um dia. Se ele for a outro cocho beber água, outro sistema sabe o quanto consumiu, quantas vezes ele bebeu água e quanto pesa enquanto se alimenta ou hidrata. Olhando ainda mais de perto, os bois também não são como os outros. Eles têm uma espécie de tampa nas costas que se abrem para que os pesquisadores saibam quanto de alimento está no rúmen do animal, quais os componentes da dieta foram mais aproveitados e quais viraram fezes. E tem mais! As fezes também são analisadas para saber se o que restou nelas pode poluir o meio ambiente. Parece ficção científica, mas as pesquisas realizadas pelas equipes do Departamento de Zootecnia da UFV ajudaram a transformar o Brasil no maior produtor de carne do mundo. E elas não param por ai.

Fotos do professor Sebastião Valadares Filho no laboratório de Nutrição Animal da Universidade Federal de Viçosa onde a alimentação do gado é monitorada para gerar dados que melhorem a produção de carne bovina no Brasil.

Segundo o professor Sebastião de Campos Valadares Filho que lidera as pesquisas com nutrição animal na UFV, em menos de 20 anos, o tempo que um boi leva para chegar ao peso ideal de abate no Brasil caiu de quatro anos para 30 meses, mas espera-se chegar aos 24 meses apenas. “A eficiência produtiva do Brasil já é muito alta, ainda mais se considerar que aqui o gado é criado solto no pasto, enquanto em outros países como os EUA, a criação é confinada para engorda. A estabilidade econômica das duas últimas décadas permitiu que o Brasil investisse em tecnologia e os produtores se interessassem pelo conhecimento científico que fez do Brasil o grande produtor mundial”, disse o professor.  O melhoramento genético das raças e as técnicas para nutrição animal foram bases do sucesso econômico da produção de leite e carne e grande parte do conhecimento acerca de dieta para bovinos de corte no Brasil foi gerada na Universidade Federal de Viçosa e disponibilizado aos produtores gratuitamente na internet por meio de dois sites que contém softwares capazes de gerar dietas balanceadas para engorda .

O Sistema BRCORTE 2.0, disponível no site www.brcorte.com.br formula dietas, estima desempenho dos animais e calcula a exigência do animal em cada fase da produção. O sistema CQBAL que já está na versão 3.0 informa a composição nutricional de cada elemento da ração. Os sistemas foram desenvolvidos pela equipe coordenada pelo professor Sebastião e contém milhares de dados sobre cada alimento consumido na dieta de bovinos em todas as regiões do país.  Atualmente, os dois sistemas são muito utilizados no país por serem eficientes, por estarem em constante atualização, porque são gratuitos e porque têm a credibilidade das pesquisas realizadas pelo Departamento de Zootecnia da UFV.

A eficiência produtiva da pecuária de corte é medida pelo tempo que um bovino leva para alcançar a média dos 500 quilos para o abate. Quanto menos tempo, maior a eficiência na produção. Para isso é preciso um dieta balanceada, que varia de acordo com a raça, a idade, o que há de disponível na ração e se o gado fica ou não confinado para engorda. São muitas variáveis, ainda mais para um país com tantas diferenças regionais como o Brasil e é isso que torna os sistemas informatizados tão complexos, embora muito simples de serem utilizados por produtores.  O professor Sebastião explica que, para compor a dieta, o produtor leva em conta, por exemplo, a disponibilidade e o preço dos nutrientes em cada região ou época do ano para gastar menos com a nutrição do animal. Para gerar as dietas eficientes, o produtor só precisa informar ao sistema BRCORTE 2.0, a raça, a demanda de engorda e a condição sexual do animal. O sistema gera a composição da dieta considerando ainda a disponibilidade de alimentos em cada região para se obter o preço mínimo dos componentes da ração. Para formular as tabelas de composição de alimentos, disponíveis no sistema CQBAL, a equipe da UFV levou mais de 20 anos cadastrando e analisando a composição química dos principais alimentos que compõem uma dieta bovina no Brasil.

Ainda segundo o professor Sebastião Valadares, o que a ciência pretende é dar respostas cada vez mais rápidas para os produtores fazendo com que o gado se alimente menos e engorde mais, por isso a riqueza de detalhes na composição de alimentos. Tanta eficiência é necessária para que o Brasil mantenha o título de maior produtor mundial de carne bovina. A expectativa brasileira para 2014 é de um rebanho de 195 milhões de bovinos. Destes, aproximadamente 150 milhões são gado de corte, mas menos de cinco milhões são criados em confinamento e a pecuária extensiva exige dietas específicas para que o gado não perca peso. Mais de 43 milhões de bovinos deverão ser abatidos este ano apenas para abastecer o mercado interno.  O Brasil é o segundo mercado consumidor mundial de carne bovina. Cada brasileiro consome em média, 39,5 quilos de carne bovina por ano, enquanto os argentinos, que ocupam o primeiro lugar no ranking mundial, consomem mais de 60 quilos per capta.

Investimentos em pesquisa têm dado resultados muito satisfatórios para o Brasil que, este ano, deverá exportar mais de 1.940 mil toneladas de equivalente carcaça de bovinos para vários países consumidores. A produção nacional está concentrada no norte (21%) e centro oeste ( 32%) do país. Juntas, as duas regiões respondem por mais da metade da produção porque é onde há onde há maiores extensões de terra e maior produção de grãos para viabilizar economicamente a nutrição para os animais. Números tão favoráveis também geram problemas. Além da expansão da fronteira agrícola para a região da floresta amazônica, a produção de bovinos é vista como grande poluidora ambiental porque o gado expele gases geradores do efeito estufa.  Dietas mal balanceadas também podem resultar na excreção de compostos que contaminam o solo. “Estes são os nossos novos desafios. Fazer com que o gado engorde mais comendo menos e sem danos ambientais”, comenta o pesquisador.  Para considerar os impactos ambientais da produção de bovinos é que a equipe investiu nos equipamentos sofisticados citados no início desta matéria. Eles também são capazes de medir a eructação dos bovinos. Os gases que soltam pela boca são quantificados para que os pesquisadores possam dizer, com precisão, quanto a produção nacional de bovinos gera de gases metano e CO2. Estas respostas serão fundamentais para a economia global que cada vez mais considera a sustentabilidade ambiental para fechar grandes negócios.

A qualidade destas pesquisas realizadas pela equipe do Departamento de Zootecnia, permitiu que a UFV sediasse o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Ciência Animal. O INCT/CA tem o objetivo de desenvolver novas metodologias e produzir informação e apoiar atividades científicas e tecnológicas inovadoras sobre ciência animal para melhorar os atuais resultados de eficiência de produção, reduzir impactos ambientais e maximizar o potencial produtivo em todas as áreas da ciência animal no Brasil. O Instituto é dirigido pelo professor Sebastião e reúne outras dez instituições de pesquisa brasileiras, a maioria de universidades federais.

Saiba mais sobre o INCT/CA no site: www.inctca.com.br